Outro dia, no boteco, um sujeito veio reclamar da minha longeva solteirice, o cara é bacana, tem duas ex-esposas, dois lindos filhos adolescentes, um bom emprego e divide o aluguel de um apartamento super bonitinho com um colega de trabalho. Estava feliz da vida, quase eufórico porque a namorada levou-lhe o carro pra ver a avó no hospital do Mandaqui. Um “pinto no lixo” com a alforria numa sexta-feira. Bebia grandes goles de cerveja e tentava participar de todas as conversas simultâneas da mesa. - Porra ! você precisa arrumar uma mulher, casar, ter seus filhos, você já ta com quantos anos mesmo ? ... 40 ? - 41 - Caralho ! então Ruizinho ... - Estou bem sozinho, vez por outra eu até que dou uma namoradinha por aí. - Mas é bom ter alguém ... blá blá blá - É que tem muita cerveja em casa, alguns livros dos quais eu gosto um bocado, acho que nem cabe uma namorada por ali, além do mais eu não vou ao cinema, detesto balada, não sei dançar, conheço nada de música e saio quase nunca de casa. - Mas e filhos ? você não vai deixar herdeiros ? (e deu uma bela gargalhada) - Já tem gente demais no mundo, não precisam de um filho meu ... - E o teu time hein ? ! ... blá blá blá No fim dei uma carona pra ele, coitado, a namorada já tinha ligado umas dez vezes dizendo que ele estava bêbado, pra nem pensar em ir pra casa dela e que amanhã era dia dele ver os filhos e ela ficava sempre em segundo plano e que ia deixar o carro pra ele em frente ao “apartamento super bonitinho” amanhã bem cedo e que ia ter que voltar de ônibus porque ele estava bêbado e tudo mais e que ele só pensa em farra e que esses seus amigos ... blá blá blá ... e que ele estava bêbado ! Eu também estava mas ... só fui dormir.
Escrito por Rui Minharro às 22h35
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